Eu realmente acredito em milagres



Domingo, 04 de dezembro de 2005. O Rio de Janeiro deixou o frio e a chuva de sábado no passado para ostentar um céu repleto de estrelas naquele dia inesquecível.
Não é verdade, mas bem que poderia ser notícia para aquele dia: "Parou o funk carioca! Parou o comércio alternativo de entorpecentes! Pararam as balas perdidas! Parou o trânsito perto da Marquês de Sapucaí! Parou foi todo mundo para ver e ouvir o Pearl Jam!"
Se me mandassem nomear, seria minha Uma Noite Alucinante, mas esse nome já usaram certa vez num filme de horror trash dos anos 80 (1). E o que senti (sentimos, né minha lindinha?) passou longe de ser aterrorizante - fora, é claro, os calafrios aos primeiros acordes de Alive.
Depois de especular por anos a fio, quantas garrafas de vinho seriam necessárias para poder ver um Eddie Vedder cambaleante, quantas vezes o vocalista mandaria um "fuck yourself" para o sr. G.W.Bush e (acima de tudo) como seria ouvir o grito de "It´s evo-luu-tion, babyyyyyyyyyyy-yeah!" ao vivo e a cores, finalmente pude aproveitar as duas horas e vinte e cinco minutos mais intensos que os sonhos de um fã já puderam conceber (2).
Cerca de vinte minutos após o show morno do Mudhoney (3), a multidão amontoada começa a berrar ao ver os cinco integrantes do Pearl Jam subirem ao palco, pegarem seus instrumentos e começarem o mais aguardado show da minha vida - se é que eu aguardei por outro algum dia. Todos esticam as mãos como se, não satisfeitos daquela proximidade, pudessem transpassar o ligeiro vão físico que os separava dos roqueiros de Seattle.
De cara, a banda prova o poder de sua música com uma sequência pesada que arrebata o público já na segunda música, quando Do The Evolution faz as cordas vocais de alguns irem para o beleléu (dentre os quais este humilde narrador se inclui).
Esbanjando seu carisma usual, o já-pra-lá-de-bragadá (4) Eddie Vedder suplica à multidão: "Esta é nossa última noite no seu país. Vamos fazê-la a melhor de todas"(5). E mais uma vez, o povo responde aos gritos e urros, acompanhada em seguida da fabulosa Animal (irônico, não?). Quando a banda resolveu tocar as suas medalhas de ouro (leia-se: Black (6), Last Kiss, Jeremy, Betterman), a coroação já tinha transcorrido.
A empatia do líder da banda transcorreu por todo o show e, num momento realmente marcante (até para quem só se enche do orgulho nacional a cada quatro anos, num evento chamado Copa do Mundo), Vedder pegou uma bandeira do Brasil (tá bom: uma canga), vestiu-se dela, dobrou-a com honras militares (!) e a postou contra o peito. Como diz a Mixéli: "ele é teatral de mais", mas é ótimo.
Pode ser exagero, mas se existe alguém que não gostou do show, dos dois, um: ou não foi ou foi, achando que quem tocaria seria a Calypso ou o Bruno e o Marrone (como alguns seguranças gritavam com um sorriso sarcástico esboçado no rosto, lá pela entrada do show). Talvez exista esse alguém, mas se tem amor pela vida, duvido que tenha coragem de se pronunciar contra outros 39.999 fãs que lotaram a praça da apoteose.
Tudo bem, tudo bem.... o Eddie virou umas três garrafas de vinho (fora as que eu não pude contar no backstage do show) e não saiu derrubado (7), nem rolaram xingamentos explícitos ao Senhor-Todo-Poderoso-Mestre-do-Universo G.W.Bush (só uma ligeira insinuação quanto ao fim do seu segundo mandato), mas o que eu queria ouvir, acabei sentindo: a magia ao vivo da banda que me fez entender que o rock é mais do que "agito", "peso" e "rebeldia". É um sentimento, é aquela vontade de algo mais que você, por mais que tente encontrar, sempre vai estar à procura.
É, como diz uma de suas músicas, "o meu sangue".
E viva ao Pearl Jam!
p.s.: antes que eu me esqueça, pedido da banda: se forem a Seattle, dêem uma ligada para eles.
p.s.2: que voltem logo e que seja aqui pelos idos das Minas Gerais...
(1) o nome original do filme, que se tornou um cult dos anos 80 e revelou ao grande público o potencial do diretor Sam Raimi (Homem-Aranha 1 e 2) era Evil Dead. E o filme chegou a ter duas continuações. Uma refilmagem do primeiro filme está sendo feita atualmente.
(2) Fã que é fã sempre sonhou em subir no palco pra dividir uma música com o ídolo. No meu caso, eu queria mesmo era cantar tudo lá. De olho aberto, seu Eddie Vedder!!!!
(3) Há cerca de dois anos atrás o Mudhoney fez sua primeira apresentação em solo brasileiro numa recepção mais calorosa do público. A obsessão, quase religiosa, do público brasileiro pelo Pearl Jam acabou por nublar a qualidade musical dessa banda que é considerada por muitos como a verdadeira criadora do movimento grunge no rock norte-americano.
(4) citação obrigatória do grupo baiano regional-cultural "Chiclete com Banana".A letra da música segue-se de uma rima complexa, divertida e instigante: "tááá.... tá pra lá de bragadá! Quero ver rebola-ar! Ô-Ô! Tááá... tá pra lá de bragadá! Quero ver rebola-ar! Ô-Ô!" e por aí vai.
(5) ou algo do tipo.
(6) A versão de Black tocada no show foi de um aspecto singular: longa (cerca de 12 min e meio), foi recheada pelo coro da multidão durante 3 minutos incessantes do "tchururútchútchúrúrú". Outro momento memorável.
(7) detalhe: Eddie não saiu derrubado, mas chegou engatinhando no primeiro bis da banda.
setlist do show no Rio de Janeiro (04-12-05):
1- Last Exit
2- Do The Evolution
3- Save You
4- Animal
5- Insignificance
6-Interstellar Overdrive / Corduroy
7- Dissident
8- Even Flow
9- Leatherman
10- Given to Fly
11- Daughter
12- Don´t Gimme No Lip
13- Not For You
14- Small Town
15- Down / Once
16- Go
17- Soon Forget
18- Betterman
19- I Believe In Miracles (cover Ramones)
20- Blood
21- Kick Out of the Jams (with Mudhoney - cover MC5)
22- Alive
23- Last Kiss
24- Black
25- Jeremy
26- Yellow LedBetter
27- Baba O´Riley (The Who cover)
PS FINAL:não satisfeito com a fábula que se revelava naquele momento, ainda tive a minha piquinininha do meu lado. Obrigado, minha linda, por fazer de um momento especial, um momento inesquecível. Bjos mil.


