A confusão nossa de cada dia

Dizem que é fácil falar sobre algo que se está sentindo naquele exato momento. Hoje, assim, agora. Dizem que o texto flui, com ligeira naturalidade, como se o teclado de seu computador, sem aviso e sem parar, puxasse as pontas de seus dedos numa conjunção frenética de tac-tacs e clique-cliques. E dizem que de repente, não mais que de repente, todo aquele amontoado de letras toma um sentido absurdo, mostrando enfim tudo aquilo que você queria gritar aos quatro ventos, mas nunca teve oportunidade ou coragem de falar.
Dizem que você é capaz de entender sobre tudo e todos, a ponto de passar para o papel o sentido da vida, o sexo dos anjos, a idade do universo, o fim do número π e o verdadeiro nome de Deus(1). Dizem que você pode fazer isso simplesmente por amar(2).
Outros insistem em dizer que não. Não, não e não. Você não pode dizer nada disso. Você não pode escrever nada disso. Você, aliás, não consegue escrever nada(3). Não consegue pensar em nada . Se o amor não é correspondido, pior ainda. O nada em que você está aí fica cheio de coisa nenhuma. E o vão de seu amor começa a se alimentar de si mesmo numa reunião entrópica somente narrada nos livros do Apocalipse(4).
Claro que essa é uma visão um pouco catastrófica dos sentimentos. Talvez feita por um maníaco-obssessivo-compulsivo que se apaixonou pela professora do Jardim de Infância(5). Mas pode acontecer. Não necessariamente, o sentimento deve ser o amor. Mas qualquer um que atordoe, estimule, inebrie ou empolgue de forma tal que você só consiga se entregar ao que sente, ao que te satisfaz naquele exato momento. Acontece assim com o regente ao ouvir a harmonia dos instrumentos de sua orquestra ao som maestra de um Mozart, com a menininha da casa da frente, quando vê a carrocinha de picolé do outro lado da rua ou com o pára-quedista louco pra saltar de alguns mulhares de pés num avião em alta velocidade, rumo ao perigo do chão.
E quando sai, o texto fica assim, confuso. Caótico, para melhor definir. Era de se esperar. Afinal de contas, um sentimento não é algo tangível, palatável, ouvível ou falável(6). É mais. Sempre mais. É um todo. Um conjunto que vale mais do que a soma das partes. É um time de futebol e não um amontoado de jogadores correndo atrás da bola. Por isso, fico por aqui..... semana que vem vou tentar ordenar meus pensamentos. Claro. Se eu virar um cubo de gelo e passar a não sentir mais nada.
(1) Referência cruzada em: ARONOFSKI, Darren. π – Pi. EUA-2001.
(2) Os melhores conceitos literários sobre o amor, a despeito de suas facetas fatalistas e pessimistas, ainda pertencem a Dostoyevski, para quem: “o amor não consulta os livros de registro do estado civil” e Balzac, que diz: “o amor é ódio ao quadrado”.
(3) Corrente Negativista relacionada ao amor, que encontrou seu vértice no Brasil na veia romântica do Realista Machado de Assis. Em “Dom Casmurro”, o personagem Bentinho não teve outra reação ao dar-se de cara com os olhos da mulher amada, senão viajar e inebriar-se naquele momento. Sua reação foi a estática. O nada. A mera atonicidade diante do amor reencontrado.
(4) Como já citado, “A Bíblia Sagrada”, Livro do Apocalipse.
(5) Isso é mais comum do que se imagina. Uma pesquisa feita pela Universidade da Califórnia, no ano de 2002, revelou a tendência humana para o encantamento com aquele de sua espécie que lhe traga atenção, segurança, carinho e aprendizado. Na pré-adolescência, a erupção hormonal contribui com o jovem na sua comum paixão pela professora – seja de qualquer área, mas as campeãs: Matemática (31% dos entrevistados) e Biologia (23%).
(6) Antes que algum engraçadinho venha falar: sim. Neologismos podem ocorrer no português padrão. Ainda mais quando inteligíveis. Vide o exemplo máximo de “Os Sertões” e depois venha reclamar comigo.



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